HIATUS

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Um beijo,
Fernanda.




terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

The chaos // the calm

Li O Teorema Katherine, do John Green, quando estava prestes a começar uma nova Grande Etapa da Vida, a faculdade. Na época, ainda escrevia no meu finado blog literário e lá falei sobre como a junção de Colin, o protagonista, com a sua obsessão com fazer alguma coisa significativa e grande para o mundo, e Hassan, o melhor amigo que gostava de passar muito tempo assistindo Judge Judy na televisão, pareciam a síntese de uma pessoa comum. (Com pessoa comum eu na verdade só queria dizer não um personagem fictício criado numa história fictícia para te fazer sentir e pensar em coisas específicas, se o autor for bem sucedido). Tenho uma tendência horrorosa a generalizar as pessoas de acordo com quem eu sou e como enxergo as coisas, então não sei se a junção dos dois personagens de fato é a representação de uma "pessoa comum".

Mas sei que a junção dos dois personagens é uma boa representação da minha própria pessoa.

Uma vez, há dois anos, escrevi aqui que o fato de o mundo ser tão grande me conforta. E sigo acreditando nisso. O mundo é grande, tem bilhões de pessoas, e é por isso mesmo que tudo bem. Tudo bem se ontem eu errei colossalmente ou precisei fazer um desvio de emergência ou nem dei a partida. No grande esquema das coisas, é tão provável a gente machucar o universo quanto ajudá-lo, e é improvável que a gente faça qualquer um dos dois, como diria Augustus em A Culpa é das Estrelas, descrevendo a maneira que a Hazel enxergava o mundo (ele só consegue olhar admirado porque quer deixar uma marca). (Uma digressão: A Culpa lida com aquela mesma questão de Teorema, mas por outros meios). Afirmei no meu post que eu não queria ser o centro do mundo, nem especial. Nunca quis.

Mas passei boa parte dos últimos meses lendo e relendo Song for the Special, um ensaio escrito pela Marina Keegan aos vinte e poucos anos e que foi reunido no seu livro póstumo, The Opposite of Loneliness, depois que ela morreu num acidente de carro alguns dias após da formatura. Marina fala sobre como toda geração acredita ser especial por algum motivo ou outro, e que desde crianças somos ensinados de que somos únicos, de que ninguém mais é exatamente como a gente, e  que podemos fazer o que quisermos.

Não cresci acreditando ser um gênio como o Colin em O Teorema Katherine, nem nunca tive nenhuma aspiração tão grandiosa quanto as dele. Tudo bem não mudar o mundo. Quase ninguém ganha um Nobel. Um Oscar. Um Pulitzer. Mas cresci ouvindo que eu podia fazer coisas, que eu podia fazer o que quisesse, que eu tinha um grande futuro pela frente. Mas eu era eu, e isso pesava mais do que me confortava. Quando cheguei na universidade, eu era só mais uma no meio de muitos e isso foi bom. Não tinha mais tantas expectativas. Era a tela em branco que eu sempre quis.

Eis que no final do ano, se tudo der certo, vou me formar e dar adeus, mesmo que seja temporário, à universidade. Vou ter um diploma, vou ser graduada, vou ter completado outra Grande Etapa da Vida. E a situação real vivida pela Marina Keegan numa conferência é uma bela imagem do que a vida parece nesse momento:

Fui a uma conferência sobre arte em Manhattan na primavera passada, e todo mundo se atropelava para conhecer todo mundo, assegurando sua individualidade como tristes caixeiros-viajantes. (...) Eu não tinha um cartão de visitas. Eu nem tinha pensado nisso. Talvez tenha sido engraçado ou bonitinho, mas só fiquei constrangida. Não tenho um cartão, eu dizia de novo e de novo. (Ha ha!) E sentava em outro painel para fazer anotações e assentir com a cabeça. Tinha tanta gente lá.

Tinha tanta gente lá. Continuo achando isso bom. Sete bilhões de pessoas, sete bilhões de possibilidades, como eu afirmei há dois anos. Mas tem tanta gente com as mesmas aspirações que eu, buscando os mesmos objetivos, tanta gente boa, e preparada, e que parece tão mais propensa a fazer alguma coisa, quem sabe até alguma coisa Importante para o Mundo. E eu também nem tenho um cartão de visitas.

Você pode ser o que quiser, eles nos dizem. Ninguém é igual a você. Mas eu pesquisei meu nome no Facebook e me deparei com oito fotinhos me encarando. As Marina Keegans com suas cidadezinhas e status de relacionamento. Quando morrermos, nossas lápides vão combinar. AQUI JAZ MARINA KEEGAN, dirão. Números um, dois, três, quatro, cinco, seis, sete, oito.

Eu não tenho um cartão de visitas e não sei que cara o próximo ano vai ter. Muito menos os próximos cinco anos. Onde você se vê em cinco anos? Não sei. Não tenho certeza. Enquanto isso, parece que todo mundo tem a vida no lugar e, mesmo quando não tem, tem mais ideia do caminho. Marina culpa a internet, onde tudo está disponível e facilmente acessível - incluindo o sucesso alheio. Mas eu não culpo a internet. Porque ela também te deixa ver que o mundo é mesmo muito grande, e tem um universo de pessoas bem maior do que a sua limitada rede de amigos deixa transparecer (por mais incrivelmente sociável e bem relacionado que você seja) - um universo de pessoas com dúvidas, com anseios e, às vezes, sem medo de falar sobre eles. Alguém já teve os mesmos sonhos que eu e deu certo, o que significa que pode dar. Alguém já teve o mesmo sonho que eu e falhou, o que significa que, mesmo se as coisas dão errado, elas podem dar certo de outro jeito, e tudo bem.

O futuro parece muito mais próximo hoje do que já pareceu antes e, como diz a Marina, existe uma chance considerável de que nunca vou fazer nada. É egoísta e egocêntrico pensar nisso, mas me assusta. Me assusta também. Não sou o Colin de Teorema, não tenho nem o sonho distante de ser alguém marcante. Mas queria ser alguém, fazer alguma coisa.

Li em algum lugar que as ondas de rádio só ficam viajando cada vez mais longe, voando pelo universo em eternas vibrações. Um dia, antes de morrer, acho que vou arranjar um microfone e subir até o topo de uma torre de rádio. Vou respirar fundo e fechar os olhos porque vai começar a chover bem quando eu chegar ao topo. Olá, direi para o espaço sideral, esse é meu cartão.

Marina Keegan tinha uma preocupação com a permanência, meio parecida com a do fictício Augustus Waters. Marina, que se preocupava tanto com a possibilidade de talvez nunca fazer nada, tinha feito uma porção de coisas quando morreu jovem demais, aos 22. Ler sua coletânea de escritos me obriga a pensar nesses anseios e inquietações, mas também traz uma estranha sensação de conforto. Marina estava fazendo coisas incríveis, tinha um futuro um pouco mais bem delineado diante de si, e também pensava nisso tudo. Talvez seja egoísta e egocêntrico pensar desse modo, mas nós sempre vamos nos enxergar no outro, não vamos?

O grande e assustador futuro, porque parece muito incerto, domina metade do tempo que eu passo falando. Tenho pensado muito nessa arte:


http://ebriosity.tumblr.com/post/124509475970/71915-journal-the-chaos-the-calm-minds

Nos últimos tempos, minha mente parece muito mais as águas revoltas do mar. Mas estou de férias, morando por uns mesinhos nas praia, e avisto um farol de longe quase todos os dias. É uma lembrança física, presente e impossível de ignorar me lembrando de que às vezes o caos se instaura, mas a luz está lá para te guiar. Basta levantar os olhos.

Talvez eu não descubra onde vou estar daqui a cinco anos - é bem provável que não. Mas posso reencontrar o farol que sempre tirou minha mente do caos e colocou-o no estado de calma, e acho que é isso que eu quero tirar de 2016, um ano para o qual eu ainda não tinha resoluções. É dois de fevereiro, mas: feliz ano novo.

sábado, 9 de janeiro de 2016

O que é um mundo onde não há quase ninguém?

Muitos anos atrás, voltando de uma viagem com a minha família, entramos numa cidade pequena e paramos para almoçar num shopping. Lembro desse dia porque, apesar de termos conseguido um lugar para comer mesmo que fosse tarde para os padrões das cidades pequenas, aquele shopping me deu uma estranha sensação de vazio. A maior parte das lojas e dos restaurantes da praça de alimentação tinham deixado de funcionar, mas ainda conservavam as fachadas, os nomes que um dia tiveram.

Anos depois, caí aleatoriamente num artigo sobre o fim da cultura dos shopping centers nos Estados Unidos (é mais ou menos a Ascensão e Queda do Shopping Center), e descobri que existe um grupo de pessoas que têm como hobby visitar shoppings abandonados e compartilhar fotografias desses lugares na internet. Foi mais ou menos na mesma época que descobri um parque de diversões japonês abandonado há uma década que fotógrafos adoram visitar, trespassando seus muros, para fotografar. Fotografias de lugares abandonados guardam um fascínio estranho. É estranho e melancólico e meio angustiante observar aqueles lugares que um dia estiveram tomados por pessoas agora vazios, definhando aos poucos, com a natureza, crescendo através do concreto e escondendo as estruturas das construções, tomando de volta os espaços que um dia nós ocupamos.

Como naquele dia em que procurava um lugar para almoçar num shopping center que parecia não ter dado certo, essas fotografias me dão uma estranha sensação de vazio que eu não sei como explicar. Talvez esteja em testemunhar a permanência das estruturas que criamos para nós mesmos quando somos tão inconstantes - um dia frequentamos um parque criado para emular a Disney num país distante, no outro temos a própria Disney e não precisamos mais de lá. Talvez esteja em pensar que o farol em desuso um dia guiou o caminho de dezenas, centenas de barcos que passavam por aquele pedacinho do oceano todos os dias, ou que o posto de gasolina em desuso um dia evitou que longas viagens de carro fossem interrompidas. Talvez esteja em enxergar possíveis sonhos abortados, os pequenos negócios que não conseguiriam prosperar, ou que não conseguiram acompanhar o ritmo das mudanças das necessidades do mundo.

Tem  um ensaio da Joan Didion, At the dam, em que ela discute sua fascinação pela Represa Hoover, no estado de Nevada, e o modo comoa frenquentemente se via falando sobre a construção em suas conversas. Ao longo do ensaio, Didion apresenta diversas razões que poderiam explicar seu fascínio, mas conclui, no final, que está no mapa estelar que existe no local. O guia de sua visita à represa explica que aquele mapa deixa registrado para toda a eternidade, para qualquer um que saiba ler as estrelas, a data em que a represa foi inaugurada - "para quando todos nós tivéssemos partido e a represa tivesse ficado". Ao que Didion conclui: "É claro que essa era a imagem que eu sempre vira, vira sem realmente perceber o que via, um dínamo finalmente livre do homem, enfim esplêndido em seu isolamento absoluto, transmitindo energia e liberando água para um mundo onde não há ninguém."

A imagem do mapa estelar não se apagou mais da minha memória e foi nessa imagem que eu me peguei pensando quando lia Estação Onze, em que Emily St. John Mandel nos apresenta ao nosso próprio mundo só para devastá-lo por uma gripe que acaba sendo letal - a gripe da Geórgia dizima, estima-se, noventa e nove por cento da população do planeta. Com uma narrativa não-linear, centrada em uma série de personagens que têm como denominador comum o fato de em algum momento terem conhecido Arthur Leander, um ator de meia idade que morre subitamente no primeiro capítulo do livro.

Estação Onze nos apresenta ao mundo antes, durante e depois do surto de gripe. O mundo de depois é um cenário bastante similar aos mundos pós-apocalípticos que estiveram tão na moda nos últimos anos - a diferença, para mim, foi que aqui vemos a Terra se transformando naquele cenário. Não são apenas personagens que nasceram e foram criados naquele mundo, que só conhecem aquilo, mas personagens que viveram e experienciaram a nossa sociedade da maneira que vivemos, e precisaram aprender a lidar com a perda dela. Aos poucos, deixam de existir os meios de comunicação, os meios de transporte, a energia, o combustível - com noventa e nove por cento da população morta, como tudo poderia continuar funcionando? Com noventa e nove por cento da população morta, é quase aquele mundo onde não há ninguém. Mas a ênfase está no quase.

A narrativa me deixou, quase sempre, com aquela estranha sensação de vazio. Para Joan Didion, o dínamo está finalmente livre do homem; interpretamos essa imagem de jeitos completamente diferentes - para mim, ela também gera uma estranha fascinação, mas cheia de pura e simples angústia. Porque um dínamo transmitindo energia e liberando água num mundo onde não há ninguém não tem razão de existir - é só uma prova de nossos esforços, de que um dia estivemos aqui e fizemos o deserto florescer, como diz um monumento instalado no local em homenagem aos 96 operários que morreram durante a construção da represa.

A mesma sensação esteve bem presente durante a leitura de Estação Onze, ao mesmo tempo em que era impossível parar de ler porque era completamente instigante. Ele nos apresenta a um mundo lúgubre, onde quem restou não têm certeza de como prosseguir, precisa reaprender a viver sem tudo aquilo que tomava como certo, um mundo onde idolatrias logo ressurgem por causa da necessidade de encontrar alguma razão espiritual que explique o que aconteceu. Um grupo sobrevive em um aeroporto (numa imagem incrível do estado em que se encontram, entre uma coisa e outra), estabelecendo lá uma espécie de comunidade, uma rede de solidariedade, mas a figura de um avião pousado ao longe, em quarentena e impedido de abrir suas portas, paira sobre eles. Mas, se o mundo é sombrio, é preciso encontrar um motivo para continuar, que aparece em outra imagem poderosa, da Sinfonia Itinerante. Num mundo destruído, ela sai pela estrada, representando Shakespeare e apresentando música clássica nas pequenas aglomerações de sobreviventes. A Sinfonia é a resistência, a vontade de continuar, de reconstruir, é o dizer que nós ainda somos humanos.

A estranha sensação de vazio ficou comigo na maior parte da narrativa ao pensar em todos aqueles lugares abandonados, na personagem que sai para explorar e descreve o mundo lá fora como um silêncio, no personagem que aparece dizendo que pensou que era o único. É um cenário pós-apocalíptico sem zumbis dos quais se esconder, sem um novo governo ditatorial ao qual combater - é um cenário do vazio. Só resta àquelas pessoas superar o trauma e buscar a reconstrução daquilo que um dia viram acontecer. O final é incrivelmente esperançoso, ainda que bem sutil e indefinido.

Não sei definir exatamente que tipo de livro é esse: se é uma ficção científica, uma distopia, mas sei que foi menos uma história de ação do que uma história de reflexão - claramente me fez pensar bastante. Se o inferno são os outros, o que é um mundo não há quase ninguém? - uma personagem se pergunta, caminhando no vazio. Para ela, pensar que a humanidade talvez logo fosse acabar é mais sereno do que triste, e é verdade que o planeta viu surgirem e desaparecerem muitas espécies. A natureza simplesmente retoma seu espaço. Mas a espécie nunca se foi realmente e, para aquele personagem que durante muito tempo imaginou ser o único, tenho certeza de que o inferno era o oposto dos outros. O inferno era o abandono.