quarta-feira, 27 de maio de 2015

So long, farewell

Dia desses me peguei me perguntando se eu ainda sou uma pessoa que escreve.

Vamos refletir sobre o assunto:

1) Porque estou cursando Literatura Russa esse semestre, decidi que queria muito, muito mesmo, ler Anna Karenina e fazer um trabalho comparando a obra com aquela adaptação do Joe Wright, que é um dos meus diretores favoritos no mundo. E foi isso que eu fiz. Mas com muito custo. Digo, escrevi em uma noite. Mas não precisava ser num estilo acadêmico, e o que eu mais queria era escrever como se estivesse postando no blog, porque eu estou tão, tão cansada da ~Academia~. O que saiu no final? Um ensaio. Cem por cento acadêmico.

2) Dois meses atrás, em março, eu terminei de ler Querido Scott, Querida Zelda, um livro que reúne a correspondência trocada entre Scott e Zelda Fitzgerald. Ler a correspondência lembra da humanidade deles, quando é muito comum simplesmente classificar os dois assim: o gênio e a mulher que abafou seu talento; ou: uma mulher oprimida por um marido autoritário. Senti muita vontade de falar sobre como a mitificação de pessoas, pessoas tão humanas como nós, acaba sendo completamente desumanizante. Foi nessa época que o trailer de Paper Towns foi lançado, o que lembra da excelente lição deixada por esse livro não tão excelente: que coisa mais traiçoeira é acreditar que uma pessoa é mais do que uma pessoa. Eu queria falar sobre acreditar que uma pessoa é mais do que uma pessoa, e em como isso acaba fazendo com que a pessoa acabe sendo menos do que uma pessoa, porque isso exclui toda a sua complexidade. Mas esse post não saiu.

3) Mais alguém (foi a Ruth Rocha) disse que Harry Potter não é literatura. Eu acabei caindo num post sobre as pessoas que se acham muito inteligentes por lerem certos livros e que, assim, não se arriscam nas suas leituras, não procuram descobrir o que há além dali. Eu li a opinião do Harold Bloom sobre Harry Potter. Eu queria falar sobre como eu também acho, hoje, que é importante ler livros que parecem maiores do que nós, e não ter medo deles, mas que ninguém é obrigado a nada. E queria questionar essa obsessão por definir o que é e não é literatura, a noção de que é algo elevado "desligar a tv e ir ler um livro" e o problema nesse tipo de hierarquização dos meios, queria questionar por que aparentemente todos nós precisamos ser o Harold Bloom, um especialista em literatura (imagina se todos nós precisássemos ser um especialista em cirurgia cardíaca ou em engenharia ou em física quântica?). Mas esse post não saiu do mundo das ideias.

4) Esse mês, aquela que tinha se tornado a minha série favorita em exibição atualmente, Mad Men, chegou ao fim - e o final foi tão, tão bom, que me deixou com vontade de voltar ao começo para ver tudo de novo. Queria escrever não sobre o final, que já foi analisado por todo mundo, mas sobre todos os aspectos incríveis da série - em parte porque queria convencer todos vocês a assistirem (tem quase inteirinha no Netflix, corre). A introdução do post está nos rascunhos, depois de eu passar um bom tempo escolhendo um título que fosse bonito e poético e que fizesse referência a uma de suas cenas mais famosas (e incríveis - vão lá ver). Mas o post, é claro, não saiu.

5) O último post que eu comecei e terminei foi aquele postado no dia 20 de abril.

O que me levou a me perguntar, de novo, se eu ainda sou uma pessoa que escreve - se não tiver um prazo envolvido.

Eu sempre gostei de refletir sobre as obras que atravessam o meu caminho e relacionar uma com a outra, e relacioná-las comigo mesma também porque, afinal, todas as histórias são sobre nós. A página em branco - ou melhor a tela em branco, porque estamos em 2015 - nunca foi uma coisa que me assustou, mas que pedia para ser preenchida. Até na escrita acadêmica, que por vezes tanto me atormenta. É toda uma alegria abrir minha pasta do semestre 2012/1 e ler o ensaio que escrevi aos dezoito anos sobre Dom Casmurro e me perguntar: de onde saiu?

Ultimamente, no entanto, a tela em branco do Blogger não tem parecido tão convidativa. Ela não é mais preenchida de jeito nenhum (talvez com um truque esperto de falar sobre a Taylor Swift - e eu adorei aquele post!, mas agora já gastei a pauta, né?).

Abandonar meu blog sem explicação é uma coisa que me incomoda, vide os posts que eu já fiz sobre o assunto. Não gosto de começar e não terminar, não gosto desse estado de suspensão que não me deixa em paz.

Pensei em apagá-lo, mas isso seria drástico demais. Pensei e em fechar, mas quantos blogs diferentes eu já comecei desde 2005? (Resposta: perdi as contas). Por fim, pensei em vir até aqui e dizer: é isso que está acontecendo. Não sei se eu ainda sei escrever. Ou melhor, não sei se eu ainda preciso escrever. Talvez mês que vem eu descubra que preciso, sim, e o Erro de Continuidade vai estar aqui.

Por enquanto, estamos oficialmente on a break.

PS: vocês ainda podem ler minhas resenhas na Pólen. Podem ler minhas reclamações e coberturas de grandes eventos (de premiações do cinema a jogos de futebol a debates) no twitter. Podem ver meus photosets e gifsets bonitos (a maioria é sobre Mad Men nos últimos tempos, perdão) - quase sempre com um ensaio digitado nas tags, risos - no tumblr.