domingo, 8 de março de 2015

O que eu andei vendo em fevereiro

Fevereiro, assim como janeiro, foi um mês bem produtivo cinematograficamente falando. Além dos filmes desse post, assisti à maioria dos indicados ao Oscar nesse mês, o que quer dizer que teve um filme a cada dois dias. Duvido que esse ritmo se mantenha ao longo do ano, mas vamos tentar. Sem mais delongas, eis o que eu andei vendo em fevereiro (spoiler: teve bastante coisa boa!).

Divergente (Neil Burger, 2014): Li Divergente e Insurgente há alguns anos e, na época, achei o primeiro livro bem bacana, bem interessante, bem daquelas histórias que te prendem, e o segundo achei bem chato - tanto que nunca terminei a série. A verdade bem sincera é que Divergente é mais uma dessas distopias genéricas que começaram a surgir graças ao sucesso de Jogos Vorazes. Não tem muita coisa a oferecer, é uma história bem genérica de pós-apocalípitoco-governantes-mal-intencionados-ação-romance-coming-of-age, mas eu precisava de um passatempo e o filme cumpriu muito bem esse papel. A Shailene Woodley fala besteira, mas é uma atriz bem competente, e fico feliz que essas sagas protagonizadas por heroínas estejam sendo levadas ao cinema e arrecadando milhões.

Regras da Vida (Lasse Halström, 1999): Nunca tinha ouvido falar desse filme, que foi uma grata surpresa do Netflix. Tobey Maguire, ainda jovenzinho, interpreta um órfão que cresce para se tornar médico (de experiência, não de formação) junto com o responsável pelo orfanato, interpretado pelo ótimo Michael Caine, mas que discorda de alguns posicionamentos do seu mentor, e que decide que precisa ver o mundo e vai para uma fazenda colher maçãs. Regras da vida, que é dos anos noventa, faz uma discussão bem honesta sobre a questão do aborto e sobre as regras arbitrárias que os seres humanos impõem sobre outros seres humanos. Não acho que o texto do filme tente ditar o que é certo e errado, mas retrata situações que permitem que você tire suas próprias conclusões. Sinceramente, não esperava tanto.

I Capture the Castle (Tim Fywell, 2003): Mais um daqueles filmes britânicos de época que são uma delícia. É um coming of age que se passa em um castelo (! - um castelo decadente, mas ainda assim) na década de 30, protagonizado por uma aspirante a escritora que vive em uma família excêntrica que precisa muito de dinheiro para sair de condições cada vez mais complicadas. Com a chegada de dois americanos ao castelo, a protagonista passa por uma série de experiências importantes para sua formação como pessoa e como escritora. Típico coming of age, só que sem juras de amor eterno, e com a confusão e as desilusões bem realistas. Ótimo filme para aquelas tardes de domingo chuvosas. Ah, a trilha sonora é do Dario Marianelli.

What If (Michael Dowse, 2013): Queria muito ter amado esse filme porque é protagonizado pelo Daniel Radcliffe e eu simpatizo muito mesmo com ele - e nem é só por causa de Harry Potter. Mas a verdade é que não amei. Nem odiei. Só... Fiquei indiferente, que é o que sempre acontece comigo quando eu assisto a uma dessas comédias românticas alternativas sobre jovens confusos e cheios de dúvidas. É bonitinho, tem alguns diálogos bacanas, os protagonistas são personagens bem realistas, mas é isso. Tive muita preguiça de todos os coadjuvantes. Dormi no meio e tive que ver o resto no outro dia. (DanRad, te amo, mas faça filmes melhores).

Hotel Ruanda (Terry George, 2004): Bem excelente esse retrato de um conflito extremamente violento e mortal entre dois grupos étnicos diferentes num país africano. Don Cheadle brilha no papel do gerente de hotel que abriga milhares de refugiados em seu local de trabalho e precisa cuidar de toda essa gente enquanto negocia para mantê-los todos vivos. O filme começa com dezenas de potenciais salvadores brancos que se encontram em Ruanda, mas eles vão deixando o país aos pouquinhos - uma das falas mais impactante do filme vem do jornalista interpretado pelo Joaquin Phoenix, quando diz que tentaria mostrar as imagens daquilo que estava acontecendo em Ruanda para o mundo: as pessoas vão exclamar "nossa, que coisa horrível" e em seguida continuarão seu jantar. Me atingiu completamente porque não poderia ser mais verdadeiro. Grande história, tão forte quanto triste. Impossível não assistir sem sentir um peso enorme por tudo aquilo que acontece no mundo e que fingimos não ver.

Entre Irmãos (Jim Sheridan, 2009): Apesar do título brasileiro sugerir uma coisa meio triângulo-amoroso-estilo-Vampire-Diaries, o filme nunca chega perto de ser um triângulo amoroso, ainda que se trate, sim, de uma mulher que se envolve com o irmão do seu marido, dado como morto na guerra no Afeganistão. Não entendi muito bem qual exatamente era a história que o filme queria contar quando ele terminou, mas vale a pena pelo retrato bem frio de um militar que volta da guerra extremamente transtornado, coisa que faz todo sentido. Não é de se espantar que guerras sejam experiências tão traumáticas, e não sei se é possível voltar inteiro delas, mesmo sem ferimentos físicos. Nenhum personagem é preto-no-branco e é possível compreender as ações de todos eles. Esse filme é um remake de uma produção dinamarquesa, e eu já tenho certeza de que ela é melhor.

A Rosa Púrpura do Cairo (Woody Allen, 1985): Que filme divertido e excelente. Um personagem fictício reparar em você assistindo à história dele no cinema pela quinta vez e decidir sair da tela para conhecer você e viver coisas novas é o sonho de qualquer fangirl. É bastante divertido perceber o quanto essa atitude geraria problemas, desconcertando o restante dos personagens do filme, que não sabem como prosseguir, os responsáveis pela projeção, os produtores, os atores envolvidos, e por aí vai. Enfim, impossível não se divertir ao longo dos oitenta minutos passados ao lado de uma personagem cinéfila e de seu personagem querido. Gosto da ideia de cada projeção do mesmo filme ter vida própria e independente e gosto muito da conclusão dada à história, que, sinceramente, não poderia ser outra.

O Último Rei da Escócia (Kevin Macdonald, 2006): Excelente trabalho do Forest Whitaker, e eu sou sempre bem parcial para falar da entrega do James McAvoy (mas, amigas, ele sempre entrega, o que eu vou fazer?), mas com toda a honestidade e sinceridade, o filme não me prendeu nem me pegou. É uma história boa e horrível sobre um ditador implacável e ao mesmo tempo tão carismático que começa seu governo celebrado por um povo que anseia por mudanças e por um país melhor, e conquista com poucas tentativas a total simpatia do médico escocês recém-formado que vai para Uganda porque quer ajudar... e porque a vida em casa está uma bosta. Só não achei que funcionou muito bem dramaticamente. Não fossem pelas atuações, não se sustentava.

Star Wars, episódios IV, V e VI (1977, 1980 e 1983): Durante muito tempo, relutei o quanto pude em assistir a isso aqui. Sempre me pareceu extremamente besta e bobo. Mas, olha só, é bem divertido. É uma história bem legal. Claro, é meio trash. Chewbacca urrando o filme todo, as festas do Jabba the Hutt??? Enfim, tem que abrir o coração. O primeiro dos filmes é o melhor entre os três, na minha opinião, e eu achei que peca um pouco por ser tudo muito objetivo. Comentei que parece que as grandes revelações do enredo ("Luke, eu sou sei pai", "Luke, você tem uma irmã" - que infeliz, eu estava shippando) não têm muita emoção ou profundidade, sabe? Mas juro que me diverti e assisti um atrás do outro. E, migas, Luke Skywalker, what a babe.


Dream Team das guerras intergaláticas num momento de descontração.

E vocês, o que andaram vendo? Tem títulos pra me recomendar? Me conta, eu vou adorar saber.

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

Comentarista do Oscar, versão 2015

Uma das coisas mais divertidas da internet é acompanhar e comentar os grandes eventos na Melhor Rede Social, junto com muita gente que sabe muito bem o quão irrelevante sua opinião é num contexto maior, mas que adora dar pitaco mesmo assim.

Tipo o Oscar, que fecha a maravilhosa temporada de premiações dos meses de janeiro e fevereiro. O que eu sei de cinema? Nada, além do conteúdo da única matéria sobre o assunto que cursei, quando ainda estudava comunicação social - e que foi, curiosamente, aquela em que eu obtive os piores resultados da minha vida acadêmica. Mas, com licença, eu poderia estar matando, eu poderia estar roubando, mas só quero comentar os erros da (extremamente masculina e extremamente branca) Academia uma vez por ano, tá?

Sonhei um sonho de conseguir assistir a todos os indicados a melhor filme e a às outras categorias interessantes (atuação e roteiro), mas isso somava dezessete filmes. Como eu perco um pouco mais da minha habilidade de fazer maratona do Oscar a cada ano, é óbvio que eu não assisti a tudo (chorando, porque queria muito ter visto alguns deles). Mas como nada me desencoraja, vamos aos comentários sobre o que eu vi.

O Grande Hotel Budapeste, de Wes Anderson: Acho que é bacana ser sincera e dizer que Moonrise Kingdom foi o único filme do Wes Anderson que eu assisti até o final, e não gostei. O nosso santo não bate, acho o estilo afetado demais e o humor estranho demais, por isso resisti ao filme mais recente do diretor mesmo tendo achado o trailer bacana e o elenco ótimo. Mas aí eu o assisti e achei visualmente uma delícia, achei as cores maravilhosas, achei bem genuinamente divertido em vários momentos (inclusive dei umas boas risadas, acreditem), achei que teve diálogos bem ótimos, achei uma historinha bacana, achei um bom filme. É isso.

O que vai levar: Fotografia, figurino, direção de arte. Acho que descola um melhor roteiro original.

A Teoria de Tudo, de James Marsh: Meu favorito, que todo mundo parece ter achado bem mediano - exceto pela atuação do Eddie Redmayne. É uma cinebiografia bem convencional com uma fotografia meio efeitos-do-Instagram, mas, gente, que coisa bem bonita. Que trilha sonora maravilhosa. Que Eddie Redmayne. Que linda celebração de duas pessoas extraordinárias. Acho que é preciso aceitá-lo nesse sentido, mais como uma celebração do que como uma biografia. Não é a história do Stephen Hawking, e sim a história dele com a Jane, que também foi uma pessoa incrível - e se na vida real ela talvez tenha sido relegada ao papel de uma grande coadjuvante, não é assim no longa. E, não, o filme não é uma divulgação científica. Para isso, imagino que você possa ler, tcharã, Uma Breve História do Tempo. Abram seus corações e vão lá ver.

O que vai levar: Melhor ator pro Eddie Redmayne e melhor trilha sonora.

O Jogo da Imitação, de Morten Tyldum: Outra cinebiografia bem convencional, mas também não é A História de Alan Turing. Esse, sim, é mais focado no trabalho do biografado - mais especificamente, ao lado da equipe com quem ele trabalhou durante a Segunda Guerra para criar a máquina que decifraria as mensagens indecifráveis da inteligência alemã e ajudaria os Aliados a venceram a guerra - do que na vida pessoal. O aspecto técnico-matemático da coisa é diluído em explicações bem simplificadas, o que quer dizer que se você está com receio de ver porque ia muito mal em matemática na escola, pode ir sem medo. É um filme bacana, apesar de emocionar e empolgar menos do que poderia, considerando a temática e tudo o que Turing deve ter sofrido graças a leis severamente homofóbicas. Ótima atuação do Benedict Cumberbatch e ótimo Dream Team de atores que eu adoro na televisão e no cinema britânico.

O que vai levar: Melhor roteiro adaptado, aparentemente.

Selma, de Ava DuVernay: O único indicado que não é primordialmente sobre um homem branco e o único dirigido por uma mulher. Sua falta de outras indicações gerou bastante revolta na internet, e ela se justifica principalmente por causa da não indicação de David Oyelowo, que eu descobri que já tinha visto em outros papéis menores, mas que aqui me surpreendeu com um trabalho fantástico. Entregar tão bem os discursos de uma personalidade tão importante e famosa por eles como o Martin Luther King certamente não era uma tarefa fácil, muito menos precisando contrastar sua figura pública com a privada. O filme é ótimo, mas ele é bem centrado em diálogos, alguns longos e demorados, o que faz com que ele seja um pouco devagar. Não é uma biopic tradicional; como eu vi por aí, é menos uma história sobre uma pessoa do que sobre todo um movimento. É forte como precisava ser, e extremamente importante. A consequência da marcha em Selma foi uma grande vitória do Civil Rights Movement, mas se a gente olhar para eventos que ocorreram só no ano passado nos EUA, é fácil lembrar que ainda estamos bem, bem longe daquele sonho que MLK tinha.

O que vai levar: Melhor canção para "Glory".

Whiplash, de Damien Chazelle: Sabe, eu meio que já cansei dessas histórias sobre Homens Horríveis. J.K. Simmons vai levar seu (merecido) Oscar por interpretar esse ser humano horrendo, professor de música num conservatório conceituadíssimo, que recorre a humilhação e violência psicológica e física para que seus pupilos deem o máximo de si, aparentemente, e para encontrar um grande artista no meio de muita gente apenas boa. Confesso que no começo eu senti uma certa peninha (e até empatia, creiam) do personagem do Miles Teller, mas ele é tão metido a besta que parei de me importar. Às vezes um personagem senta à mesa com a família e diz que prefere morrer bêbado aos 34 anos e ter gente falando sobre ele depois do que não ser lembrado por ninguém, diz pra namorada que ela é só um obstáculo pro sonho dele, e você sabe que você e aquele filme não poderiam ser mais incompatíveis. Só que eu gostei (!). Odiei a mensagem, gostei do filme. É muito bem feito, intenso, emocionalmente esgotante, e as atuações são ótimas. Mandava os dois personagens direto pra lata de lixo, e é isso.

O que vai levar: Melhor ator coadjuvante para o J.K. Simmons, montagem e mixagem de som (???).

E o que eu não vi? Tem justificativa e tem aposta:

Boyhood, de Richard Linklater: Queria muito ter assistido, curto demais a trilogia famosa do Linklater e não acho que o fato de o filme ter sido filmado ao longo de doze anos seja coisa da qual é fácil de se fazer pouco caso. Ainda não consegui assistir (chorando). Talvez eu acabe odiando (talvez só dormindo), mas por ora eu torço por ele. [Edit 21/2: Não dormi, nem muito menos odiei. Os doze anos de filmagens foram muito bem montados, resultando num filme coerente e muito bacana, com os anos progredindo naturalmente - bem como nada vida, não é? Em flashes? Acho que acontece uma identificação natural com diversos dos flashes da vida do Mason, e fiquei nostálgica pela infância e lembrando da natureza essencialmente agridoce da adolescência, e foi uma grande experiência. Fiquei particularmente emocionada com a pequena apariçãozinha de Harry Potter, por sinal. Espero que ganhe muitas coisas. Foi um baita projeto, que resultou num ótimo filme.]

O que vai levar: Melhor filme e melhor atriz coadjuvante para a Patricia Arquette.

Birdman, de Alejandro G. Iñárritu: Assisti ao trailer e fiquei com a impressão de que esse é o filme mais pretensiosamente chato com o qual a Academia nos presenteou desde A Árvore da Vida. Daquela vez, eu até me esforcei para ver, mas dessa vez decidi seguir meus instintos e ignorar o filme mesmo com a presença da Emma Stone, a diva que eu quero copiar. Me avisem se eu estiver errada, porque eu não me importo se tiver que dar o braço a torcer.

O que vai levar: Acho que vai ser um daqueles casos de favoritos que acabam saindo praticamente de mãos abanando, mas aposto em melhor direção.

Sniper Americano, de Clint Eastwood: Confesso que a polêmica suscitada me deixou curiosa para assistir e tirar minhas próprias conclusões. Acho sinceramente que militares são ótimos objetos de estudo e acho forçação de barra dizer que um filme, por si só, faz com que os espectadores saiam soltando ódio, preconceito e xenofobia nas redes socais - mas ele certamente pode servir de propaganda e contribuir para o discurso de ódio já enraizado nos seus eventuais espectadores. Estou, sim, curiosa, mesmo que seja para falar mal depois, só não tenho certeza de que topo gastar num ingresso de cinema.

O que vai levar: Uma bilheteria (nos EUA) maior do que as de todos os outros indicados somadas.

Apostas:

Baseada em excelentes critérios, muitas vezes o do famoso melhor chute (alô categorias de documentário, filme estrangeiro e curtas) (e essas categorias de som, quem é que sabe votar nisso?), vou apostar em todas. Com fins científicos, claro - descobrir se no próximo ano devo entrar num bolão.

terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

Eu e as trilhas sonoras

Uma das coisas que eu mais amo nessa vida são as trilhas sonoras instrumentais do cinema. Trilhas sonoras instrumentais são fantásticas porque elas dizem tanta coisa sem usar palavras. Palavras são meio que my thing, porque tecnicamente eu estou estudando para ser uma especialista em texto. Mesmo assim, costumo dizer que sou uma péssima leitora de poesia. E se sou péssima para poesia, que é texto, imagina o quão ruim eu sou para letras de música, que estão necessariamente ligadas à melodia. Imagina então o quão ruim eu sou para falar daquele tipo de música que nem tem letra.

Por isso, minha relação com as trilhas sonoras é muito baseada naquele velho clichê da internet: não sei o que dizer, só sentir. As trilhas sonoras são moldadas para que as emoções passadas pelo filme sejam sentidas melhor e com mais intensidade. Música é uma forma excelente de fazer com que cenas se tornem muito mais marcantes, e, pelo menos pra mim, deixa tudo muito mais vívido na memória. Cameron Diaz chorando e tendo uma crise de riso no banco de trás de um táxi, depois correndo na neve até os braços do Jude Law é uma das minhas cenas favoritas da vida em grande parte graças ao Hans Zimmer. O tema da Hushpuppy é uma das coisas mais bonitas e brilhantes que eu já ouvi, e escutá-lo faz você se sentir como se estivesse vivendo seu épico particular. Dario Marianelli complementa, utilizando-se dos versos de um hino bem incrível, o plano-sequência fantástico que nos apresenta a Dunquerque, num momento importante da Segunda Guerra, em Desejo e Reparação. Aposto que todo mundo que assistiu à segunda parte de Harry Potter e as Relíquias da Morte ficou pelo menos um pouquinho emocionado quando a trilha (bem bonita) do Alexandre Desplat deu lugar a "Leaving Hogwarts", composta pelo John Williams para o primeiro filme, na cena em que o Harry vai deixar uma nova geração de Weasleys e Potters na Plataforma 9¾.

Uma das melhores cenas de O Amor Não Tira Férias.
Desculpa se eu falo demais desse filme, é o que acontece depois que você revê umas quinze vezes.

Trilhas sonoras também se transformaram numa parte muito importante da minha vida porque é com a ajuda delas que eu consigo realizar muitas das minhas leituras obrigatórias e escrever resumos e esquemas intermináveis nas semanas de prova (elas só não ajudam a lidar com aqueles textos propositalmente hipercomplexos que na verdade não tem como entender). Às vezes, quando tocam os highlights do álbum (provavelmente highlights do filme também), eu sou obrigada a parar e ouvir - é a (sempre necessária) hora da pausa. Por isso, sou muito grata por trilhas sonoras existirem. Muitas notas A em provas de linguística e em ensaios de literatura dependeram bastante delas.

É por isso que uma das minhas categorias preferidas nas premiações do cinema é a de melhor trilha sonora. Eu procuro ouvir as trilhas indicadas depois de ver os filmes, escolher uma favorita e torcer mesmo. Não escolho minhas favoritas porque são inovadoras ou porque têm 73 instrumentos diferentes, ou porque são particularmente espertas incluindo o som de uma máquina de escrever ou soando como um joguinho de computador, mas porque elas me deixam só sabendo sentir.

Esse ano, por exemplo, teve um filme novo do Christopher Nolan. Talvez você não saiba, mas eu adoro a maior parte dos filmes do Nolan. Acho os blockbusters que ele faz sensacionais, faço questão de pagar para ver numa sala de cinema com o som nas alturas, me divirto muito e costumo ir embora ao final super feliz pela experiência. Por isso, fiquei super empolgada quando assisti ao trailer de Interestelar. E acabei ficando bem decepcionada quando assisti ao filme. Ele começa fantástico e empolgante (apesar dos eventuais momentos de "'murica!!!", mas a gente releva), o lado mais humano da história, centrado na relação de pai e filha, é bem bonita, mas o último terço do filme foi um enorme balde de água fria. Eu me sentia esperando o Doctor aparecer na TARDIS para salvar o dia a qualquer momento. (Não tem nada de errado com Doctor Who, mas não dá pra apelar para o espírito doctorwhoniano se você passou duas horas se propondo a realizar um épico super sério.)

Se o filme, que apesar de não ter sido ruim também não foi tão bom quanto eu queria que fosse, deixou a desejar, pelo menos a trilha sonora do Hans Zimmer me deixou cem por cento maravilhada. Não consigo ouvir a música que abre o filme, quando o Cooper e os filhos perseguem o drone pelo milharal, sem lembrar do quão empolgante essa cena faz o filme parecer. Ela te diz: você está prestes a assistir uma aventura incrível, emocionante e arrebatadora. Promessa que só se cumpre parcialmente, é verdade. Mas a promessa não deixa de ser incrível.

Torci pelo Hans Zimmer no Globo de Ouro antes mesmo de conhecer as outras trilhas indicadas porque sou dessas. Fiquei #chateada quando ele perdeu o prêmio para Jóhann Jóhannsson com A Teoria de Tudo. Comentei que duvidava que ela realmente fosse melhor, porque sou eu. E daí eu fui assistir ao filme sobre Stephen Hawking e sua ex-esposa Jane. Ele começa com o Stephen andando de bicicleta em Cambridge. Todo mundo sabe que andar de bicicleta é uma coisa que ele não pode fazer há décadas, assim como não pode fazer coisas bem mais simples, como falar e mexer a maior parte dos músculos. Por isso, a cena em si já é bem significativa. Junte à música emocionante do Jóhannsson e cataploft: sentimentos. A trilha sonora desse filme é mais convencional e menos inventiva do que a de Interestelar, não acho que seja melhor, mas é tocante e bem eficiente em adicionar emoção a uma história que já é emocionante mesmo sem os truques cinematográficos, e, porque sou eu, estou bem apaixonada por ela.


No fim das contas, pra quem vai o Oscar é bem irrelevante (e, aparentemente, todo mundo prefere Alexandre Desplat, seja com O Jogo da Imitação, seja com Grande Hotel Budapeste). Quem ganha sou eu. Queria que minha vida tivesse uma trilha instrumental para que eu pudesse saber quais momentos dela representam grandes pontos de virada e quais são os pontos altos que, reza a lenda, um dia vão passar diante dos meus olhos. Ou para que eu soubesse quando deveria me preparar para os tempos difíceis. E, principalmente, para adicionar um pouco de beleza e mágica a todos esses momentos. Já que não tem como, só me resta me contentar com as trilhas sonoras compostas para as histórias dos outros. Eu diria que estou bem servida.