terça-feira, 21 de outubro de 2014

Mistral, quididade e experiências numinosas

Quando comecei minha primeira cadeira de tradução na faculdade, há um ano, uma das primeiras decisões que tomei foi a de instalar um dicionário no meu telefone. O Google Tradutor é um bom aliado, ainda que confiar demais nele nunca seja uma boa ideia, mas eu logo descobri que ele – ou qualquer dicionário bilíngue – nunca me bastariam. Antes de partir na (às vezes sangrenta) batalha em busca de um bom equivalente, nada melhor do que ler uma definição.

De uns tempos pra cá, talvez devido a uma atualização, o app escolhido na época, o Dictionary.com, passou a me enviar a "palavra do dia" todas as manhãs e, toda manhã, eu leio a definição, mesmo que inevitavelmente acabe esquecendo dela minutos depois. Semana passada, talvez na segunda, a palavra do dia era mistral, que eu nunca tinha ouvido ou lido antes.
mistral substantivo 1. um vento frio, seco, setentrional, comum no sul da França e em regiões vizinhas.
O mistral é um vento que sopra do sul da França para o Mediterrâneo. Não teria nada demais nessa palavra, exceto que, por coincidência ou destino, dependendo de como você interpreta a situação, mais tarde naquele mesmo dia eu lia Esta valsa é minha, romance semiautobiográfico da Zelda Fitzgerald (a esposa do Scott, essa mesma). No livro, em determinado momento, os personagens vão viver na Riviera Francesa. Duas vezes, naquele mesmo dia, li o narrador do romance falando no tal do mistral que soprava.

Achei a experiência curiosa e, se fossem números ao invés de uma palavra, teria jogado eles na loteria. Como não eram números, valeu muito pela curiosidade – por exemplo, a de pensar que ventos específicos têm um nome, coisa em que eu nunca tinha parado para pensar, apesar de sempre ter ouvido falar do minuano. Valeu também pela sensação maravilhosa de efetivamente adicionar mais uma palavra, ou expressão, ao vocabulário. E isso, pra quem escreve – ou pra quem traduz – é sempre relevante, mesmo que na hora não pareça.

Já que eu leio pra compreender melhor a vida, vou citar outro livro que esteve me fazendo companhia por esses dias: em The Raven Boys, um Young Adult sobrenatural do qual eu ainda quero muito falar nesse blog, Richard Gansey (Terceiro), um menino extremamente privilegiado que pode fazer o que quiser da vida, passa uma quantidade considerável de tempo lendo e pesquisando (para fins particulares, mas não vem ao caso agora). Numa conversa casual sobre esse negócio com o qual ele é obcecado, que envolve antigos reis galeses e linhas espirituais pelas quais as almas dos mortos se descolocam, Gansey pondera que tem alguma coisa nessas linhas que “fortifica ou protege os cadáveres. A alma. O… animus. A sua quididade”. Para o alívio da protagonista, nas palavras do próprio texto, um terceiro menino intercede, lembrando Gansey de que ninguém sabe o que é quididade ("Tudo aquilo que faz com que uma pessoa seja o que ela é", ele explica). Na mesma conversa, esse terceiro garoto precisa lembrar o amigo de que ninguém sabe quem é Ned Kelly (um criminoso australiano). É quando Gansey parece tão inocentemente surpreendido com o fato de Ned Kelly não ser conhecimento compartilhado por todos que a protagonista percebe que o menino nunca teve a intenção de ser condescendente com ninguém.

É só uma passagem do livro (ainda que ela reapareça, com algumas variações, em outros momentos), mas não consegui esquecer dela porque nunca antes na vida me identifiquei tanto com uma criatura meio prodigiosa e extremamente privilegiada. Não que eu saia por aí falando sobre quididade (dicionarizada, mas eu nunca tinha ouvido falar) ou incluindo expressões em latim nas minhas conversas, mas já ouvi que a vida não era uma dissertação do vestibular.

Só que não se trata de usar palavra nenhuma com a finalidade de impressionar ninguém – nem mesmo nos meus trabalhos acadêmicos (só vou atrás de sinônimos se as repetições realmente estão passando dos limites) – mas porque, às vezes, depois que você aprende uma expressão e qual é o sentido dela, nenhuma outra que você conhecia antes parece funcionar tão bem. Uma das primeiras discussões que me lembro de ter tido no curso de Letras foi sobre sinônimos e, quanto mais penso nela, mais sentido parece fazer: não existem sinônimos perfeitos porque, se duas palavras expressassem exatamente o mesmo sentido, não haveria razão para que as duas existissem.

Daí me lembra a minha insistência irredutível, lá na Tradução do Inglês I, quando traduzíamos um texto sobre a transferência das tribos de indígenas americanos para o Território Indígena no Oklahoma, em traduzir "the numinous sensation" por "a sensação numinosa". Mas ninguém nunca ouviu falar em numinoso. Nem em numinous, eu diria.
numinoso adjetivo 1. pertencente ou relativo ao nume; espiritual ou sobrenatural. 2. que ultrapassa a compreensão ou o entendimento; misterioso. 3. que desperta sentimentos elevados de dever, honra, lealdade, etc.
Por que não divino, por que não sublime? Porque é diferente. Porque divino sugere Deus (o das religiões cristãs) e é necessariamente religioso, porque sublime pode também sugerir alto grau de excelência. A sensação era numinosa, não divina, não sublime. Tive de procurar a palavra no dicionário e não era meu papel evitar que um leitor do texto precisasse fazer o mesmo.

Talvez seja coisa minha, que aprendi a amar as palavras e a admirar o ritmo de uma frase, o modo de descrever coisas mundanas quase como se fossem sublimes, mas eu duvido muito, considerando que 330 mil pessoas escolheram compartilhar ou salvar o significado de cafuné nos seus Tumblrs, por exemplo. E se eu puder dizer cafuné ao invés de "correr os dedos pelo cabelo de alguém que se ama", eu provavelmente vou ficar com a primeira opção. Ainda que precise explicar o que quis dizer. Ainda que faça alguém ir até o dicionário.

Palavras são um tipo de riqueza também. Talvez faça parte reconhecer que você é privilegiado. Você certamente pode utilizá-las pra assegurar sua posição mais alta na hierarquia, se quiser. Não é – e, espero, nunca vai ser – o meu desejo. Mas que coisa linda poder dizer, na minha hipotética narrativa que se passa no Sul do Brasil, que soprava o Minuano, e, naquela que se passa no Sul da França, que soprava o Mistral. Porque certamente esses ventos não são iguais. Se fossem, não precisariam de palavras que os diferenciassem. Cada um deles, tenho certeza, faz tão parte do contexto em que existem quanto outras características. Tipo a população. Ou as árvores. Ou o que quer que seja. E é pra isso que as palavras existem. É praticamente nosso dever utilizá-las vez que outra, pra não deixar que elas sejam esquecidas.

Às vezes, aprender uma palavra nova é quase uma experiência numinosa. Quer dizer, quais são as chances? Um aplicativo te envia ela pela manhã e, pela tarde, ela aparece duas vezes, de surpresa, no meio do livro que você estava lendo?

Tem que ter um pouquinho de sobrenatural nisso.

(adj.) que descreve uma experiência que te deixa temeroso, mas fascinado,
intimidado, mas atraído – o sentimento poderoso e pessoal de ser subjugado e inspirado
Fonte: x

sábado, 11 de outubro de 2014

Taylor Swift Book Tag

Eu adoro a Taylor Swift. Descobri as músicas dela quando tinha uns dezesseis anos e estava atrás de algo que soasse bem como trilha sonora de um trabalho que eu precisava apresentar (ah, que saudades do ensino médio e da possibilidade de transformar seminários em vídeos feitos no Movie Maker). Na época, Taylor era bem country, e eu adorava, mas celebrei a transição dela para o pop (Red é um álbum maravilhoso demais) e, por mais que tenha torcido um pouquinho o nariz pra Shake it off quando ouvi pela primeira vez, no dia seguinte já estava cantarolando, bem alegre, que haters gonna hate hate hate hate hate. Tudo isso, somado à pessoa pública que a Taylor tem apresentado nos últimos tempos, vestindo camiseta de meme do Tumblr e dando entrevistas tipo essas para o Guardian e para a Rolling Stone, me faz continuar admirando a moça mesmo hoje que sou velha (risos).

Daí, não tinha como não amar esse meme para o qual a Ana, do Oh So Fangirl, me indicou.

A proposta é bem simples: relacionar livros diferentes com os títulos de músicas selecionadas da Taylor.


Red (escolha um livro com capa vermelha) • Porque eu sou monotemática, e porque estou pensando em relê-lo, vou ficar com o onipresente (nesse blog) The Scorpio Races, daquela que atualmente deve ser minha autora de YA favortia, Maggie Stiefvater. Nenhumas das edições americanas tem capa realmente vermelha - elas são de um marrom avermelhado - mas vou trapacear um pouquinho porque a edição britânica tem. Amigos, esse livro é lindo lindo lindo. Prosa incrível, cenários maravilhosamente descritos, personagens lindos. (Leiam!!! Ok, prosseguindo).

We Are Never Ever Getting Back Together (um livro ou série que você estava amando, mas que depois você decidiu que queria "terminar" com ela) • Os Instrumentos Mortais. Sei que essa série da Cassandra Clare é meio polêmica na internet, mas eu me diverti horrores lendo os três primeiros livros da série: tem personagens bacanas, é fantasia urbana que se passa em Nova York, tem amor proibido, tem mocinho ultra sarcástico e convencido... Originalmente, era uma trilogia, mas por motivos de $, provavelmente, e porque a Cassie só sabe escrever no mesmo universo, ela inventou de incluir mais três livrinhos. Li um e meio e: que morte horrível.

The Best Day (um livro que faça você se sentir nostálgica) • Não teria como a resposta ser outra que não Harry Potter e a Pedra Filosofal. Foi o primeiro livro "longo" e "difícil" que eu li, aos oito (nove?) anos, que mais tarde compartilhei com muita gente e através do qual acabei fazendo amizades com pessoas incríveis. Esses dias, enquanto assistia a (parte da) maratona dos filmes na TNT, me peguei sentindo saudades e pensando em quanta sorte eu tive por ter crescido junto com Harry, Rony e Hermione.

Love Story (um livro com uma história de amor proibida) • Depois de muito encarar a estante, fiquei com As Brumas de Avalon. Gente, não sei lidar com incesto, não, desculpa, mas era bem triste acompanhar Arthur apaixonado pela meia-irmã a vida inteira, ainda mais porque eles nem crescerem juntos e... Por que fazem isso, autores? (Aliás, faz muito muito tempo que li essa saga e acho que valia uma releitura).

I Knew You Were Trouble (um livro com um personagem mau, mas que apesar disso, você não conseguiu resistir e se apaixonou dele) • Depende de qual é sua definição de um personagem mau. A verdade é que eu costumo gostar dos que são bonzinhos, dos genuinamente esforçados para serem pessoas boas ou de personagens que até se apresentam como "maus" pro mundo, mas na verdade não são (pontos extras se na verdade eles são secretamente ~almas torturadas~ por baixo de todo seu comportamento duvidoso).

Innocent (um livro que alguém estragou o final para você) • Ainda lembro da aula de cursinho sobre Grande sertão: veredas em que ganhei um belo spoiler do final do livro. Tive que ler mais tarde, pra faculdade, mas a verdade é que o spoiler não diminui em nada a força da conclusão do livro.

You Belong With Me (um livro que você está ansiosa para que seja lançado e que você possa ler) • Já fui mais ansiosa com relação a lançamentos de livros, mas a verdade é que nesse momento - tenho evitado as séries, especialmente as não concluídas - não consigo pensar em nada. 20/10/14: Blue Lily, Lily Blue, o terceiro livro do Raven Cycle (Maggie Stiefvater, você por aqui de novo) lança amanhã, então vou ficar com: o quarto livro dessa série, que eu não sei quando chegará até nós. E ainda nem terminei o segundo.

Everything Has Changed (um livro em que o personagem se desenvolve bastante) • São minhas histórias favoritíssimas, por sinal. Gosto muito de personagens que ainda são crianças porque isso costuma acontecer com elas - afinal, é quase inevitável. É o caso da Scout de O Sol é Para Todos. Gosto especialmente do desenvolvimento da visão dela em relação ao vizinho estranho dos Finch, o Boo Radley, mas também de como ela passa a enxergar a si mesma e às suas responsabilidades. Algumas pessoas acham essa última parte um aspecto ruim da obra, mas eu acho que apenas faz parte de crescer.

Forever and Always (o seu casal literário favorito) • Nessa categoria vou ter que imitar a Ana e ficar com Elizabeth Bennet e Sr. Darcy, de Orgulho e Preconceito. Já declarei publicamente meu amor por esse último aqui no blog, e eu obviamente admiro demais a Lizzy e simplesmente amo o desenvolvimento tanto de cada um dos personagens individualmente quanto da maneira como percebem um ao outro. E não há palavras para: "Não posso definir a hora, ou o lugar, ou o olhar, ou as palavras que estabeleceram a fundação. Faz muito tempo. Eu estava no meio antes de saber que havia começado".

Come Back, Be Here (escolha um livro que você não gosta de emprestar por medo de nunca mais voltar) • Eu já disse aqui antes que não tenho muitos problemas com isso. Não tenho nenhum livro raro nem nada, então talvez meus livros que possuem dedicatórias sejam aqueles que eu não gostaria de jeito nenhum de perder.

Pra variar, não sei pra quem indicar. Fiquem à vontade pra responder ao meme, se quiserem. E, por sinal: alguém mais está louco pra ouvir 1989?

terça-feira, 23 de setembro de 2014

Bem mais do que futebol americano, ou: aquele post obrigatório sobre Friday Night Lights

Uma cidadezinha do Texas. Os Panthers, o time de futebol americano da escola de ensino médio da cidade, são a paixão dos moradores. Tem um cara, divorciado há pouco, que vive e respira futebol americano. Os filhos pré-adolescentes dele, que foram morar com a mãe depois da separação, aparecem para fazer uma visita. O menino chega com uma camiseta com o escudo da CBF (sim) e diz pro pai que agora gosta de futebol (o nosso, não o deles). Tudo bem que as crianças estão passando por aquela fase em que todo mundo fica meio insuportável vez que outra, e elas ainda estão aprendendo a lidar com o divórcio dos pais. Mas o garoto vai para o jogo de sexta-feira à noite dos Panthers com a maior cara de bunda do mundo. Aí o jogo vai acontecendo, os Panthers fazem boas jogadas, a torcida se empolga, o garoto começa a sorrir e a torcer e, no fim, as crianças dizem que se divertiram muito.
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Essa trama acontece lá pela metade da terceira temporada e, quando assisti, pensei na hora que aquelas crianças poderiam ser uma boa representação da minha relação com Friday Night Lights e com esse esporte bizarro dos touchdowns. Comecei a assistir à série quando a Copa do Mundo se encaminhava para o seu final e eu, que tinha acabado de entrar em férias, estava atrás de uma nova distração. O episódio piloto nos apresenta aos vários personagens e à atmosfera da cidade de Dillon, além da relação de amor da dela com o futebol americano, parecida com a nossa com o futebol: lá todo mundo fecha o comércio e outros serviços para assistir aos jogos de sexta-feira à noite, todo mundo é especialista e tem sugestões sobre como treinar o time e todo mundo as comunica ao técnico quando encontra com ele pela cidade.


Agora, sintam o drama, que começa a ser estabelecido logo no piloto: o quarterback do time é uma estrela e o grande nome do time. No meio do primeiro jogo da temporada, ele se machuca e precisa ser substituído. Não tem ninguém tão bom quanto ele pra entrar no lugar, e o campeonato acabou de começar. O time inteiro está tenso e amedrontado. A pressão em cima do coach Taylor é tão grande que já tem gente mandando ele fazer as malas depois de um jogo decepcionante.

Ainda que tudo isso seja muito bem feito, minha reação inicial à série foi reservar um pouco de descrença em relação a tudo que ela tinha pra me oferecer depois. Além de, é claro, me perguntar como é possível que todas essas pessoas se empolguem tanto e gostem tanto de um esporte tão... chato. Corta o futebol americano pra uns três minutos por episódio que fica mil vezes melhor, pensei.

Mas aquele clichê é verdadeiro: acima de tudo, é uma história sobre pessoas. Aos poucos você vai percebendo que os Panthers são só um pano de fundo pra falar sobre essas pessoas, que estão todas ligadas ao time de uma forma ou de outra. Conforme os episódios vão passando, você começa a se importar com elas. Com o técnico do time que está tentando manter o grupo de pé em meio às dificuldades e que precisa aguentar a desconfiança da cidade toda porque perdeu um jogo. Ou com a família dele, que tenta se estabelecer naquela comunidade, mas que sabe que vai ter que segui-lo para onde quer que ele vá se tudo começar a dar errado. Ou o menino que era estrela e já tinha todo o futuro planejado e de repente é confrontado com a impossibilidade desses planos. Com o outro, que precisa substituir o ídolo da cidade, mas é completamente desacreditado por todo mundo e ainda precisa trabalhar, precisa cuidar da avó doente e ser um adulto responsável quando ele ainda é adolescente. Com o cara à primeira vista meio babaca que acredita ter sido o responsável pela lesão da estrela do time. Com a garota que tem medo de criar expectativas pro futuro porque acha que nunca vai conseguir conquistar nada e "quebrar o molde".

Os roteiristas de FNL têm um grande carinho por seus personagens, que nunca são usados como meras ferramentas para desenvolver o enredo - não, eles são o foco. Nenhum é privado de desenvolvimento e crescimento, e todo personagem importante recebe uma despedida digna. Porque em uma série com tantos protagonistas adolescentes que têm sonhos muito maiores do que aqueles que a pequena Dillon pode oferecer, muitos precisam, eventualmente, partir, e a série permite que eles façam isso.

E aí você começa a perceber que o futebol também é, pra muitos daqueles garotos, uma chance pra alcançar esses sonhos maiores do que uma cidadezinha do interior do Texas. Ou pra, dentro de Dillon mesmo, dar mais sentido às suas próprias vidas - porque ali eles são bons e têm um objetivo pelo qual trabalhar. Coach Eric Taylor, personagem maravilhoso que rendeu um Emmy pro Kyle Chandler, inspira esses garotos dentro do campo e nos vestiários, mas ele também se preocupa em encaminhá-los do lado de fora também. É a figura paterna que muitos personagens da série não têm. Tami Taylor, interpretada pela fantástica Connie Britton, começa como apenas a esposa do técnico e acaba tendo um papel importante na vida de vários desses adolescentes porque ela sempre se importa. Através desses adolescentes, a série apresenta diversos temas, tipo a desigualdade social e a falta de oportunidade que muitos desses jovens enfrentam, o preconceito racial, o abandono em que muitos vivem por causa dos pais ausentes e a influência que isso têm em suas vidas, as complicadas - e diferentes - relações familiares. Além, é claro, dos temas típicos da adolescência, em geral bem explorados.

Por causa desses personagens maravilhosos para quem os Dillon Panthers têm tanta importância, eventualmente comecei a me empolgar até mesmo com o campeonato estadual. Já na primeira temporada eu estava envolvida e tinha a sensação de que me sentiria pessoalmente ofendida se os meninos de Dillon não ganhassem aquele raio de campeonato no final. Bem como aquele garoto vistando o pai, comecei apática e terminei torcendo.


Clear eyes, full hearts, can't stop crying, como diria a internet.

Já falei inúmeras vezes por aqui que não é muito difícil me fazer chorar, mas FNL conseguiu fazer mais e encher meus olhos d'água numa sequência de uns dez episódios seguidos (e em mais uns outros dez perdidos pelo resto da série, provavelmente). Isso tudo sem ser manipuladora, e pouquíssimas vezes com momentos grandiosos demais, coisa que o roteiro e direção da série quase nunca se permitem.

Aí, em determinado ponto, às vésperas de um jogo muito importante, uma das personagens lê em voiceover um trecho do ensaio que enviou como parte de sua inscrição na universidade. É uma coisa que ela nunca se permitiria fazer lá no começo, por medo de não conseguir e por causa de como ela aprendera a se enxergar graças à imagem que os outros tinham dela, e você percebe o quanto a personagem cresceu. Enquanto ela lê, a série te oferece uma montagem com os momentos pré-dia-de-jogo vividos pelos diversos protagonistas. Ok, é um daqueles raros momentos grandiosos e um pouquinho manipuladores a que a série se permite. Mas é lindo. E você lembra que Friday Night Lights é bem mais do que futebol americano. Ganhando ou perdendo, vai ficar tudo bem. Isso nunca foi o mais importante.
Dois anos atrás, eu tinha medo de querer coisas. Imaginava que querer levaria a tentar e tentar levaria ao fracasso. Mas agora descobri que não consigo parar de querer. (...) Não é que eu ache que vou conseguir todas essas coisas. Eu só quero ter a possibilidade de consegui-las.
FNL é uma série sem pretensões grandiosas que vai te conquistando aos poucos. Teve seus enredos pouco inspirados, boa parte da segunda temporada foi tão fraquinha que a própria série buscou enterrá-la do jeito que foi possível, algumas atuações são bem medianas, principalmente quando comparadas com o pessoal mais talentoso. Mas que história linda, linda e humana, que poucas vezes perdeu a aura de realismo e tão respeitosa com o desenvolvimento de seus personagens. Na linguagem de Eric Taylor, you listen to me, let me tell you something, I can promise you right  here, right now, que tem grandes chances de você morrer de amores por esse mundo de Dillon também, se estiver disposto a dar uma chance. Lá no começo, eu não imaginava que Friday Night Lights me faria voltar ao pouco saudável binge-watching. E, principalmente, eu não acreditaria se alguém me dissesse que eu estaria escrevendo um comentário tão elogioso sobre uma série com foco tão grande num time de futebol. Hoje, porém, eu só posso dizer isso: vem, gente!


O tweet é do Seth Meyers. Mas poderia muito bem ser meu, que só tenho mais um episódio antes do fim.