03/04/14

03/04/14

Guarda-chuvas amarelos e trompas azuis

Sim, o post contém spoilers do final da série. Avisei.

Desde segunda à noite, quando How I Met Your Mother chegou ao fim depois de (longas) nove temporadas, surgiu um debate gigante na internet a respeito dos rumos que a história tomou com o último episódio. Tem quem tenha amado o que aconteceu, tem quem tenha odiado veementemente e esteja aí na torcida pra How I Met Your Dad, o meio-que-spin-off-mas-que-parece-mais-reciclagem-de-uma-ideia-que-um-dia-foi-boa que os criadores da série estão desenvolvendo, falhe miseravelmente. O que é o máximo, porque demonstra o quanto as pessoas se sentiam ligadas (pelo motivo que fosse) a essa série.


No meu caso, só comecei a ver ano passado, quando a oitava temporada já estava chegando ao fim. Não investi noves anos nessa história, mas foi a maratona mais rápida que eu já fiz: porque gostei dos personagens, gostei do tom da narrativa, quase sempre me fazia rir (pelo menos no começo), era uma comédia com profundidade emocional e a gente genuinamente se importava com esses personagens.

Desde a sexta ou sétima temporada a qualidade tinha decaído bastante e ficava claro que a série estava no ar bem mais por motivos de dinheiro do que por ter muito a dizer. Esta última temporada foi construída a partir de um conceito horrendo que só pareceu uma boa ideia antes da execução, e a primeira metade dela foi tão difícil de assistir que cogitei abandonar de vez e deixei em stand-by por várias semanas. De lá pra cá, teve uma sequência de episódios bacanas (How Your Mother Met Me pra sempre em nossos corações), mas mesmo assim estava na cara que a hora de dar tchau já tinha chegado há um bom tempo. Mas a gente se acostuma com a presença desses personagens, a gente acompanhou todos eles por mais de 200 episódios e sempre dá aquela emoçãozinha quando as coisas acabam. E mesmo que a série estivesse bem longe do seu auge, era difícil não ter altas expectativas quanto ao fim, principalmente quando a gente lembrava que os roteiristas tinham bastante cuidado em amarrar bem as pontas e montar direitinho o quebra-cabeça que eles criaram com os inúmeros flashbacks e flashforwards e a narrativa não-linear que não só foi criativa como, de modo geral, bem executada.

Talvez por isso minha decepção com Last Forever tenha sido tão grande. O episódio inteiro foi corrido, mesmo sendo duplo, e tentou agregar dezessete anos em quarenta minutos. A gente teve uns trinta segundos pra respirar entre o momento em que finalmente descobrimos como Ted conheceu a mãe dos seus filhos, Tracy – numa cena muito linda, por sinal – e aquele em que ficamos sabendo que ela tinha morrido e então já tinham se passado seis anos e a filha deles estava afirmando que a história toda era, na verdade, sobre como Ted “totally, totally, totally [had] the hots for Aunt Robin”. Talvez se a gente tivesse mais do que trinta segundos pra processar as informações, não tivesse sido tão desgostoso. Só que do jeito que a coisa foi explorada, só serviu pra meu cérebro ficar berrando “whoa, alerta de final terrivelmente mal escrito”.

Só que praticamente tudo foi mal escrito e executado de um modo preguiçoso. O casamento da temporada? Eu torcia por Barney e Robin, gostava do casal, gostava de como eles foram abrindo espaço um para o outro em suas vidas e conseguiam entender um ao outro. O segundo episódio da série que eu vi na vida, aleatoriamente na Fox, foi, olha só, aquele em que o Barney pede a Robin em casamento. Quando comecei a assistir de verdade, foi estranho: como aquele Barney poderia ser o mesmo que eu estava vendo agora? Mas ele não era – tinha sete anos no meio, e o personagem, ainda bem, foi desenvolvido nesse meio tempo. Mesmo assim, não acho difícil de acreditar que ele a Robin tenham se divorciado. Nenhum deles parecia acreditar muito na instituição do casamento, tiveram milhares de idas e vindas e passaram essa temporada toda sem saber direito o que fazer. Eles tentaram durante três anos e decidiram que, eventualmente, não queriam mais tentar. E isso não invalida a história dos dois. Agora, convenhamos que assistir uma temporada inteira dos dois superando seus receios pra chegar ao altar depois de 22 episódios e umas cinco temporadas dos roteiristas nos vendendo esse relacionamento, só pra ver ele terminando dez minutos depois sem nenhuma profundidade emocional, foi bem chato.

Mas a gente segue adiante porque, afinal, quem conta a história para nós é o Ted, e ele certamente está mais preocupado com suas próprias aventuras. Ele é o protagonista, e se os quarenta minutos já eram limitados para falar só sobre o que ele viveu naqueles dezessete anos, imagina se tentasse focar também nos outros quatro personagens principais que a gente acompanhou durante nove temporadas. (A pergunta de um milhão de dólares: onde está a storyline de Lily e Marshall nessa finale?)

E daí, Tarcy morreu cedo demais. Não foi uma surpresa, como todo mundo já comentou: ela já tinha pedido ao Ted, em Vesuvius, que ele não se tornasse só o homem com suas histórias, e, numa das cenas mais emocionantes e bonitas da série (que salvaram um episódio muito do medíocre), Ted “vai até o apartamento dela” e diz que eles vão se conhecer quarenta e cinco dias depois dali e que daria tudo para ter aqueles quarenta e cinco dias a mais com ela. Esse final triste já estava se desenhando lá. E não me encheu de desgosto – exceto por ter sido tão rápido que a gente mal conseguiu processar. A gente já tinha visto ao longo dessa temporada que Tracy e Ted foram extremamente felizes juntos, não importa o quanto durou esse tempo. A série é uma comédia, mas nunca hesitou em explorar o lado mais dramático da vida, e me pergunto quem não se emocionou muito e não se lembra até hoje do Marshall descobrindo que perdeu o pai, da Robin descobrindo que não podia ter filhos, da Lily confessando pro Ted que às vezes achava que era horrível como mãe. O fato de a Tracy ter morrido não faz a história que ela e o Ted viveram juntos, nem a jornada dos dois até encontrarem um ao outro, serem menos importantes, ou bonitas, ou relevantes.

O episódio não tinha sido exatamente bom antes da já famigerada conversa que Ted tem com os filhos depois de, finalmente, dizer a eles como foi que conheceu a mãe deles. Mas foi depois daí que, pra mim, ficou desastroso.

Eu concordo com todo mundo que afirmou por aí que, embora a série se chame "Como conheci sua mãe", ela nunca foi uma história sobre a mãe.Tá certo. Foi uma história sobre a transformação, com seus momentos doces e os amargos, de jovens imaturos em adultos, sobre a amizade entre essas cinco pessoas, sobre diferentes tipos de amor. E, sobretudo, sobre crescer – que nem sempre é fácil ou do jeito que a gente planejava, mas que é inevitável (e deveria ser visto como algo bom). Só que em determinado momento, que eu já nem sei afirmar quando aconteceu, a série começou a criar uma mitologia em torno da mãe, com seus guarda-chuvas amarelos e botas, com seus personagens dizendo pro Ted que ela estava chegando e vindo tão rápido quanto podia. Com as inúmeras vezes em que o Bob Saget (será que daqui a uns vinte anos o Josh Radnor vai acordar falando com a voz dele? Vamos acompanhar) contava aos filhos sobre algum momento desastroso ou alguma escolha horrenda que ele fizera, mas que estava tudo bem. Porque sem aqueles momentos e sem aquelas escolhas, ele nunca teria conhecido a mãe deles. O Ted do futuro começou a se apresentar como alguém que estava, aos poucos, crescendo, amadurecendo e aprendendo, pra chegar àquele momento que deu nome ao seriado.

Here’s the funny thing: in my own crazy way, I was kind of happy. For the first time in years, there was no little part of me clinging to the dream of being with Robin… which meant, for the first time in years, the world was wide open—because, kids, when a door closes? Well, you know the rest.

Foram os roteiristas que apresentaram tudo isso pra nós, por escolha deles. Foram eles que escreveram todas as recaídas do Ted em relação à Robin, e ela dizendo, de novo e de novo, que não queria ficar com ele e, eventualmente, que não o amava (o que resultou naquela cena bacana e cheia de simbolismo ali em cima). Foram eles que demonstraram que tinha uma série de motivos por que esse casal não dava certo. Aí, quando tenho que assistir um Ted nos seus cinquenta anos repetindo o mesmo gesto de roubar a trompa azul e aparecendo na janela da Robin, fica difícil processar. Como espectadora, não queria que o Ted ficasse sozinho o resto da vida, e entendo por que os filhos dele também não queriam isso. Ele precisava seguir em frente, do mesmo jeito que a própria Tracy seguiu em frente depois do Max. O problema é que isso aconteceu com a Robin. A obsessão que o Ted carregou durante tanto tempo, de modo que a gente ficava sempre se perguntando o quão incrível seria a mãe, que ajudou a fazer com que ele conseguisse deixar até mesmo a Robin – pra quem ele sempre tentava voltar nos momentos ruins – finalmente, finalmente, ir. A impressão que fica (e, de novo, talvez ela não fosse assim se o episódio não fosse tão corrido e sem tempo pra desenvolver coisa nenhuma com profundidade) é que ele amou a Tracy enquanto não tinha a Robin, mas que a imagem dela sempre estava lá no fundo esperando pra voltar. O que é horrível. Em algum momento você precisa aprender a parar de insistir em algo que não dá certo e seguir adiante, porque não é saudável manter uma obsessão por uma ideia pelo resto da vida.

Concordo com o que a própria série já nos disse uma vez, na voz da Robin, sobre o importante ser a jornada, e não o destino e é isso que eu pretendo lembrar em How I Met Your Mother. Quis escrever o post porque eu não aguento mais ler que, só porque não gostei desse "destino", não entendi a série. Talvez as pessoas só tenham visões diferentes a respeito das coisas. E, por favor, a série tem uma porção de boas lições e reflexões pra nos passar, ela foi bem acima da média durante muito tempo e certamente tem um coração imenso. Mas ainda é uma comédia com laugh track e conversas telepáticas: não tentem fazer de conta que ela é uma obra tão difícil assim de interpretar, e muito menos que existe só uma interpretação correta.

Fica aqui minha torcida pra que How I Met Your Dad ou seja muito diferente da sua versão-mãe, ou que dê errado mesmo, apesar de eu não pretender assistir. Não por raiva dos criadores, porque ela foi momentânea e não vou ficar guardando rancor de gente que nem conheço e nem sabe que eu existo (né, gente?). Mas porque é preguiçoso demais reciclar uma ideia que já foi explorada (até o bagaço, convenhamos) durante nove anos. E porque sempre gosto de acreditar no melhor das pessoas, e nesse momento isso quer dizer acreditar que Carter Bays e Craig Thomas podem inventar coisas diferentes.

Pra terminar, num mundo ideal How I Met Your Mother acabou assim.

Nós dois, Ted. Nós dois.

24/03/14

24/03/14

She’s a marshmallow

Semana retrasada, no dia 14, aconteceu a estreia do filme que deu continuidade – e um final – à melhor série adolescente de toda a história, Veronica Mars: aquele seriado americano de audiência modesta que conseguiu levantar quase seis milhões de dólares no Kickstarter pra que esse filme fosse produzido.

Crédito: x

Veronica Mars é, na minha humilde opinião, uma das séries mais injustiçadas de todos os tempos. Com a audiência sempre entre os dois e três milhões (e isso entre 2004 e 2007, quando as pessoas assistiam muito mais tv ao vivo do que hoje), só teve três temporadas e nunca chegou perto de ser um hit. Veronica chegou ao fim quando estava em seu terceiro ano, depois de uma temporada meio fail exibida pela CW (um canal que hoje em dia só me dá desgosto nas escolhas, apesar de ter uma exceção). Só que não chegou ao fim de verdade, porque terminou num cliffhanger.

Daí, seis anos depois, noventa e uma mil pessoas aceitaram, bem literalmente, pagar pra ter uma conclusão, que chegou pro mundo via internet na sexta-feira retrasada, ainda que muita gente ainda não saiba como e por que isso aconteceu e o que é que a Veronica Mars tem, afinal.

A premissa é, digamos assim, bem boba: uma menina de dezessete anos de "humor: seco/sarcástico", filha de um detetive particular e ex-xerife da cidade de Neptune, Califórnia, trabalha como assistente do pai, e começa a investigar casos próprios a serviço de seus colegas do ensino médio. Mas eu juro pra vocês que a saga dos Mars é bem mais interessante de acompanhar do que parece.


Veronica Mars é metade série adolescente (quer dizer, se passa no high school e a escola é o cenário de boa parte da trama), metade inspirada no gênero noir (imagina que maravilhoso para quem de fato entende do assunto fica procurando as ligações). Veronica é uma adolescente que, desde muito nova, se viu de frente com o crime, por vezes brutal: a vida dela mudou completamente após sua melhor amiga (que era interpretada pela Amanda Seyfried, por sinal) ser brutalmente assassinada - um caso cuja investigação acabou fazendo o pai de Veronica perder o emprego. Neptune, a cidade fictícia onde a ação se passa, é lar de dezenas de famílias ricas (tipo grandes estrelas de cinema) e, ao mesmo tempo, de gente bem pobre. Como Veronica diz logo no piloto “Neptune: a cidade sem classe média”, e isso faz parte da temática central desde o começo.

O mundo em que Veronica vive é essencialmente corrupto, independente do lado para o qual você se volte. Vai dos "bons garotos" que na verdade vivem tomados de culpa e atormentados pelo passado, passado esse escondido a sete chaves pela família rica, aos bad boys que cresceram num ambiente opressor e criados por pais abusivos; da “gangue das motocicletas” que é oprimida e discriminada pela polícia, ao xerife que se preocupa muito pouco com fatos e com provas. E, não vamos esquecer, da protagonista que tem uma carinha de menina fofa, mas que realiza um trabalho como detetive particular que ela não tem autorização para fazer, e que, numa porção de vezes, só consegue realizar porque ela sempre dá “um jeitinho” (aka: ilegal). O mais importante ao assistir a série é lembrar que, em Neptune, sempre tem algo de podre bem escondido por baixo daquilo que as coisas aparentam ser. E Veronica e Keith Mars geralmente estão lá pra trazer esses fatos à tona.

Quando o universo da série estabelece que nada está fora dos limites, e que, acredite você ou não, existe um número suficiente de adolescentes para contratar Veronica toda a semana para resolver algum tipo de crime ou história moralmente ambígua, as possibilidades são imensas, o que faz com que surjam casos bem criativos. Sim, a estrutura é no estilo caso-da-semana (com um crime maior que atravessa a temporada para ser resolvido só no fim), e eles vão de testes de pureza e nerds roubando dinheiro de gente desavisada por meio de emails falsos a casos de estupro num campus universitário e professores pedófilos. Nem todas essas histórias são tão chamativas, bem escritas ou bem desenvolvidas (especialmente se forem da terceira temporada, aquela meio falhada), mas, de modo geral, o resultado vai bem além do satisfatório.

Só que trama nenhuma se salva sem bons personagens porque, pelo menos pra mim, isso é o que sempre se destaca e prevalece – isso e as relações humanas estabelecidas entre eles. Veronica é uma mocinha sarcástica e com um ar de durona que foi obrigada a adotar pra deixar bem claro para a cidade inteira que, não importa o que eles façam, não vão trazê-la pra baixo. Ela vem de um lar desfeito, foi abandonada pela mãe alcoólatra e por isso insiste em dizer que “o herói é aquele que fica”; ao mesmo tempo, nunca perde as esperanças de ser contatada pela mãe de novo. Keith sofre as emoções paradoxais de ver a filha sendo excelente naquilo que é o modo dele de ganhar a vida, mas quer que ela se dedique aos estudos e procure outras coisas pra ela, talvez colocando um pouco mais de distância entre ela toda aquela sujeira a qual é tão frequentemente exposta. Os Mars têm uma das dinâmicas familiares mais bacanas e interessantes de acompanhar.


E tem o romance, é claro. Ah, o romance. Se tenho preguiça de personagens jovenzinhos que insistem em declarar o quão épica é sua história de amor, eu aceito de bom grado que essa qualidade seja atribuída ao casal que, sem que o autor da série tivesse essa intenção, puxou pra si todas as atenções. O que você faz quando o ship name desse casal dá, literalmente, em love? Você shippa. Surge de repente, mas de maneira crível, surge porque esses dois personagens compartilham uma mesma perda que doeu absurdamente nos dois e porque circunstâncias infelizes (que afastaram os dois) são o que acaba reaproximando os dois e o que permite que a Veronica, junto com a gente, veja o lado mais dolorido e vulnerável do personagem que faz o papel de “babaca psicótico compulsório” de Neptune High, já que toda escola tem um. A partir daí, a coisa só progride – e o crescimento e desenvolvimento do babaca é simplesmente o maior em toda a trama, mesmo que uma porção de gente tenha preguiça de reconhecer isso. Quando ele afirma que achava que a história dele e da Veronica era épica, você meio que revira os olhos e meio que é obrigado a concordar. E, já que estamos falando de ficção, fica feliz ao concordar. Porque, como ele diz, “ninguém escreve canções” sobre os relacionamentos que são fáceis.

Veronica Mars é a melhor série de temática adolescente que eu já vi, mas você não precisa necessariamente ser adolescente pra assistir. Aliás, esse é um dos casos em que eu magicamente me encontro junto com a crítica (ou: adultos) – que em geral fez uma avaliação muito positiva – e não com o grande público, que nem assistiu (sério, nem a estreia teve audiência muito boa). Mas também estou junto daquelas noventa e uma mil pessoas que doaram dinheiro pra que a história continuasse e chegasse a uma conclusão, e das outras não sei mais quantas que passaram esses últimos seis anos twittando, mandando emails e enviando barras de chocolate Mars pra Warner, do Rob Thomas, que nunca desistiu realmente da ideia, e de um elenco maravilhoso, encabeçado pela queridíssima Kristen Bell, que aceitou receber bem pouco pra fazer o filme acontecer.

Assisti ao filme duas vezes no fim de semana passado, tipo de coisa que eu não fazia há muito tempo, e fiquei genuinamente animada em feliz por ver ali, na minha frente, algo que eu sinceramente acreditava que nunca ia ver acontecer. Se o filme não teve o caso da semana mais interessante de todos, ele ganha todas as estrelas do mundo por tudo o que representa. E obviamente me deixou com vontade de fazer uma maratona da série o mais cedo possível. Mais que isso, me fez ter vontade de vir aqui e escrever um post enorme pra pedir: se você ainda não fez a si mesmo o favor de assistir o piloto dessa série, resolva essa pendência o quanto antes. Duvido que você não seja conquistado pelo Marhsmallow.

21/02/14

21/02/14

Quando eu comecei a chorar (ou: quando eu fiquei velha)

Há alguns anos, eu costumava achar engraçado que algumas pessoas fossem tão emotivas. Fazia graça do meu pai que se emocionava assistindo matéria no jornal, das minhas amigas que choravam nas festas de quinze anos, de todo mundo que chora em casamentos.

Quando eu era criança, nunca chorei vendo um filme da Disney (digo isso a partir da época que eu consigo lembrar, claro). Devo ter achado certos momentos tristes, mas não tinha lágrimas. Eu tenho cem por cento de certeza de que estava mais preocupada era com a música, sempre. Mufasa morreu? John Smith disse pra Pocahontas que “preferiria morrer amanhã a viver cem anos sem nunca tê-la conhecido”? A China inteira fez uma reverência pra Mulan, inclusive o imperador? Não tão relevante quanto "o ciclo sem fiiiim" ou "lá na curva o que é que veeem?".

Eis que, nos últimos três ou quatro anos, revi todos esses filmes da Disney e, sim, você acertou, meus olhos se encheram de lágrimas em cada uma dessas cenas. É até meio perturbador, porque a cena da morte do Mufasa, e do Simba percebendo que perdeu o pai na sequência, é absurdamente triste, e parece até pesado demais para uma criança. Mas eu obviamente não cresci traumatizada por O Rei Leão, nem conheço ninguém que tenha passado por isso.

Não dá pra dizer com certeza, mas acho que percebi pela primeira vez que algo terrível tinha me acontecido quando me peguei com olhos marejados (tipo, de verdade. Mesmo.) assistindo O Amor Não Tira Férias pela quinquagésima vez, quando o Arthur – o simpático e muito sábio personagem interpretado pelo Eli Wallach – finalmente aceita um evento dedicado a ele pelo sindicato dos roteiristas de Hollywood (ou algo assim), e [spoiler alert] se depara com um punhado de gente que admira seu trabalho, aplaudindo de pé, quando ele esperava encontrar uma meia dúzia de pessoas num evento sem graça. Tudo isso ao som da trilha lindíssima do Hans Zimmer. Daí, Arthur sobe as escadas até o palco – sendo que, no começo do filme, ele precisava de um andador pra caminhar – num lindo e clássico momento de superação Hollywoodiano.

Eu já tinha assistido a esse filme antes, mas de repente eu estava profundamente comovida por ele. Daí pra frente foi tudo ladeira abaixo. Toda a troça que eu fazia de quem se emociona quase excessivamente e chora por tudo? Nunca mais vou poder repetir. Porque, pra continuar na mesma linha de raciocínio, eu virei o personagem do Jude Law nesse mesmo filme, que se descreve como um “major weeper” (ou: um grande chorão) e, inclusive, aparece com olhos marejados algumas vezes.

  
  
I feel ya, Graham. [Gifs: x]

Se estou vendo o jornal, e é apresentada uma reportagem que conta uma história de superação, é garantido que eu vou chorar. Se é uma história sobre amor ao próximo, sobre se doar sem pedir nada em troca, eu vou chorar. Se forem crianças fazendo isso então, eu talvez desidrate. Crianças passando por qualquer tipo de adversidade é uma coisa quase insuportável, especialmente se elas põem um sorriso no rosto e são fortes. E, não, não é culpa do repórter e nem da edição manipuladora.

Chorei vendo minha “priminha”, pra quem esse título não cabe mais, de quem lembro de ter visto na maternidade, fazer quinze anos. Meus olhos se encheram d’água quando li os agradecimentos do TCC do meu irmão. Chorei no cinema assistindo Gravidade, e parece que ninguém compartilhou essa situação comigo. Aliás, eu choro tanto vendo filme e tv que acho que deveria fazer uma listinha chamada “Lágrimas” e postar por aí em algum lugar.

Hoje em dia eu choro de alegria, de orgulho, de admiração, de tristeza, de raiva, de assombro. E não é preciso quase nada pra colocar minhas glândulas lacrimais pra funcionar. Aposto que se eu resolver entrar de penetra em um casamento ou em uma festa de despedida ou o que quer que seja de alguém que nunca vi antes, vou me emocionar um pouquinho.

Ontem, por meio dos caminhos tortuosos pelos quais a gente caminha na internet, caí nessa matéria do Huffington Post, sobre um vídeo de uma campanha norueguesa pelas crianças da Síria. É um videozinho no estilo câmera escondida em que um menino treme de frio porque está sozinho e está nevando e ele não tem um casaco, e os estranhos tiram seus agasalhos ou suas luvas e cachecóis e oferecem pra ele. A bondade dos estranhos é algo que sempre me comove, seja editada pra caber numa propaganda, seja na vida real – endereçada a mim ou a outro completo desconhecido. Sim, eu também fiquei com os olhos marejados assistindo ao vídeo, coisa que a essa altura do campeonato qualquer um lendo esse post já foi capaz de inferir. O fato é que, porque eu nunca aprendi a mais importante lição da internet, decidi ler os comentários postados na matéria, e alguém disse que “parece que quanto mais eu envelheço, mais molenga eu fico” e eu fiquei pensando... Será que é isso? Será que é a idade que pesa? Ou será que é meu castigo? Nunca esqueço de que minha prima vivia rindo do nariz da mãe dela quando criança, daí cresceu pra ficar com o mesmo nariz, e minha tia sempre dizia que era castigo. Talvez seja isso. Eu, que achava tão engraçado que meu pai pudesse se emocionar tão fácil, fiquei pior ainda.

Já deve fazer uns quatro anos desde que eu repentinamente percebi que também tinha me transformado numa “major weeper”, e provavelmente só vai piorar com o tempo. Resta saber se estou velha, se estou sendo castigada ou se isso já estava no meu DNA e eu nem sabia.